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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os livros de História

"Os livros de História vão se lembrar desse dia. A segunda-feira, 17 de maio, quando Brasil e Turquia vieram propor à ONU um acordo negociado com Teerã sobre o problema nuclear iraniano. Qualquer que seja a leitura que se faça do texto final da carta, esta mediação turco-brasileira em forma de fato consumado - sem que ninguém a tenha pedido - muda muita coisa. Ela fere de facto o domínio reservado dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia.

A esses países, a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan é a seguinte: não há hipótese, em pleno 2010, de deixá-los reinar sozinhos em uma ordem internacional onde o peso das nações evolui em favor de países como os nossos (o Sul emergente vai do Egito à África do Sul, da Nigéria à Indonésia).

Aos que ainda não haviam entendido, Brasil e Turquia colocaram, na terça-feira, os pingos nos is. Eles querem fazer parte do chamado 5+1, grupo que, dotado de um mandato da ONU, trata do caso nuclear iraniano".

Essas aspas não estão aí por acaso. Esse texto não é meu, é do Le Monde. E seu conteúdo é tão expressivo que eu não pude pensar em outra maneira de começar a carta de hoje.

Só para constar, parágrafos abaixo, a matéria continua considerando que "as ambições dos países do Sul são legítimas" - antes, claro, de ponderar que, no caso específico da questão nuclear iraniana, o ceticismo dos cinco países do Conselho são fundamentadas. Natural: o Le Monde é francês, e a França faz parte dos cinco. Numa posição desconfortabilíssima, aliás.

Figura-se a mal-estar da França no caso nuclear iraniano lendo o Figaro de ontem - jornal conservador alinhado até nas vírgulas com a Sarkolândia. Na página seis, encontra-se a matéria: "Washington alia China e Rússia contra Irã ". Na sete, "Sarkozy saúda seu amigo Lula em Madri".

Quem lê a página seis, é informado da pressão estabelecida pelos cinco países membros do Conselho de Segurança - entre eles a França - contra Teerã. E que Brasil e Turquia teriam entrado de contrapé na história. Quem lê a página sete, ilustrada com um animado aperto de mão dos presidentes francês e brasileiro, fica sabendo, de novo entre aspas, "do profundo reconhecimento [de Sarkozy] àquele que mais ajudou na libertação de Clotilde Reiss", a estudante francesa acusada de espionagem que ficou dez meses detida no Irã.

Afinal, Sarkozy ajuda a bater, junto com os outro quatro que formam o grupinho dos invencíveis do planeta, ou a assoprar, ao lado de "seu amigo" Lula?

O assunto é ainda mais delicado porque, menos de dois dias depois da libertação de Reiss, a Justiça francesa decretou a liberação condicional seguida de expulsão do agente iraniano Ali Vakili Rad, condenado à prisão perpétua em 1994 pelo assassinato do antigo primeiro-ministro do xá do Irã, Chapour Bakhtiar, ocorrido em Paris três anos antes.

Ainda que evidente, a troca de prisioneiros é negada pelo governo francês, que fala em uma "simples coincidência". Munido de seu nariz de pinóquio, Sarkozy perguntou em uma coletiva: "você acha que eu tenho cara de um homem que troca um assassino por uma estudante?" Será que é mesmo para responder?

O fato é que, lendo os jornais franceses, dá a impressão de que os livros de História estão sendo reescritos neste exato momento, com um capítulo especialmente dedicado ao Brasil. E lendo os jornais brasileiros, bom, a gente fica muito bem informado sobre o filme não transmitido no debate dos pré-candidatos e os prefeitos.

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